Até 10 mil mulheres e bebês podem ter sido deportados da Grã-Bretanha para a Irlanda em esquema de adoções forçadas, revela investigação da emissora ITV. O caso, que ocorreu entre 1931 e 1977, expõe práticas de repatriação forçada, falsificação de documentos e tráfico de crianças. Sobreviventes exigem reparação dos governos da Irlanda e do Reino Unido.
A história por trás do escândalo
Segundo a ITV News, autoridades britânicas e irlandesas deportavam mães solteiras da Grã-Bretanha para instituições estatais na Irlanda. Nas mesmas instituições, funcionários retiravam os bebês à força e os entregavam para adoção ilegal. Como resultado, muitas vítimas só descobriram sua verdadeira nacionalidade britânica décadas depois.
A investigação encontrou provas de que as crianças recebiam documentos irlandeses falsos, que apagavam sua origem britânica. Além disso, sobreviventes acusam o Estado e instituições religiosas de sequestro institucionalizado. “Isso foi um crime organizado”, afirmou uma das vítimas.
Terri Harrison, uma das mães, descreveu o ‘dia do horror’ em que um padre e freiras a arrastaram à força em Londres. “Disseram que eu cometi um crime por engravidar sem casar”, relatou. Em seguida, a enviaram de avião para o orfanato Bessborough, em Cork, onde perderam até seu nome: “Me transformaram em ‘Tracey, número 1735’. Roubaram meu filho do berço enquanto ele dormia”, denunciou.
Paul Cullen: a mentira descoberta aos 62 anos
Paul Cullen, de 62 anos, descobriu em 2021 que nasceu em Londres, mas autoridades falsificaram sua certidão para registrá-lo como irlandês. “Minha mãe era uma enfermeira solteira. A pressionaram a voltar à Irlanda”, explicou. O grupo religioso Crusade of Rescue (atual Catholic Children’s Society) organizou a adoção.
Fiona Cahill e o trauma herdado
Fiona Cahill revelou que sua mãe, Maria, sofria de traumas por ser rotulada como “PFI” (Pregnant from Ireland). “Maria só descobriu que era britânica aos 40 anos, quando encontrou duas certidões: uma verdadeira e outra falsa”, contou. Apesar disso, a família ainda luta por reparação.
A Catholic Children’s Society emitiu uma nota reconhecendo o estigma sofrido pelas mães solteiras no passado. No entanto, sobreviventes exigem ações concretas: “Lamentar não basta. Queremos justiça”, cobrou Terri Harrison.
