quarta-feira, junho 10, 2026

Crianças na Irlanda: Espera por psicólogo chega a 13 anos

Crianças na Irlanda: Espera por psicólogo chega a 13 anos

Um levantamento recente da RTÉ News, a principal emissora de televisão pública da Irlanda, revela uma situação crítica no sistema de saúde mental infantil. Na área noroeste da capital Dublin, crianças podem esperar até treze anos por uma primeira consulta com um psicólogo no serviço público. Este atendimento inicial, conhecido como atenção primária, é crucial para conter o agravamento de problemas considerados leves ou moderados.

Os números mostram a extensão do problema: mais de 28 mil crianças aguardam na fila por uma consulta psicológica em todo o país. Desse total, cerca de 15 mil já esperam há mais de doze meses. Embora o HSE (o órgão equivalente ao SUS irlandês) informe que a espera recorde de 13 anos em Dublin caiu para dez anos, especialistas e famílias ainda consideram a situação gravíssima.

O drama humano por trás dos números

A espera por um tratamento que nunca chega causa consequências profundas para as famílias. Uma mãe, que preferiu não se identificar, contou que sua filha, autista, permaneceu cinco anos na lista de espera do serviço primário sem nunca receber um atendimento. Em meio a uma crise intensa, a jovem acabou no CAMHS, o serviço especializado em saúde mental infantil e juvenil.

“Ela tinha crises diárias, perdia a fala e o controle motor, e às vezes se tornava violenta. Foi desesperador. Acabamos levando-a ao hospital porque não sabíamos mais o que fazer”, desabafou a mãe.

Histórias como essa se repetem. Jaimie Williams, mãe de uma menina de quatro anos que apresenta sinais de autismo e TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), soube que sua filha precisará esperar seis anos apenas para realizar uma avaliação que confirme o diagnóstico.

“Ela luta todos os dias para tentar viver uma vida normal. Se não fosse por nós, Deus sabe onde ela estaria”, compartilha Jaimie. “Busco informações sobre terapias e diagnósticos por conta própria, porque não recebemos apoio algum. Ela só receberá um diagnóstico por volta dos dez anos de idade, o que é simplesmente inacreditável.”

Especialistas apontam para um sistema à beira do colapso

Psiquiatras que atuam na Irlanda alertam que a demora no acesso à psicologia básica cria um efeito dominó. Esta situação sobrecarrega os serviços especializados e piora o estado emocional das crianças. A Dra. Patricia Byrne, presidente da Faculdade de Psiquiatria da Infância e Adolescência do país, é direta: a falta de psicólogos na base empurra milhares de casos para estruturas que já operam no limite de sua capacidade.

“Há uma escassez total de profissionais e recursos. O sistema está negligenciando as crianças”, declarou a especialista.

A autoridade máxima para os direitos das crianças no país, o Defensor Público da Infância (Ombudsman for Children) Dr. Niall Muldoon, classificou a situação como inaceitável. “Uma criança que entra na lista aos cinco anos pode chegar à vida adulta sem nunca receber atendimento. Isso representa um fracasso do sistema”, afirmou. “Esperar 13 anos não configura uma fila de espera, mas uma tragédia.”

Quem pode paga, quem não pode espera

A crise escancara uma profunda desigualdade social. De acordo com a médica Sinéad Feeney, do Crescent Medical Centre(Centro médico em Galway), encaminhar crianças para a psicologia do serviço público se tornou, na prática, uma medida ineficaz.

“Se você tem dinheiro, pode buscar atendimento particular. Se não tem, fica preso em um sistema sem saída”, lamentou.

O país conta com 181 centros de saúde primária, mas a presença de psicólogos não é uma realidade em todos eles. Atualmente, apenas 200 profissionais desse tipo atuam nesses serviços em toda a Irlanda.

O problema chega ao Parlamento Irlandês

A pressão pública levou a crise ao Parlamento Irlandês. O deputado Liam Quaide, do partido Social Democrats, argumenta que os sucessivos governos negligenciaram o problema por anos e que o congelamento de contratações no HSE agravou a situação. “A crise afeta todas as regiões e especialidades. Precisamos de uma resposta urgente e coordenada”, declarou. O parlamentar solicitou uma sessão conjunta de comitês de saúde para discutir o tema em profundidade.

Enquanto o poder público busca soluções, milhares de famílias seguem imersas em um sistema lento e fragmentado, sem previsão de receber o apoio psicológico essencial para o bem-estar e o desenvolvimento de suas crianças.

Fonte: RTÉ

 

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