Irlanda avalia importar gás natural liquefeito dos EUA
A Irlanda estuda importar gás natural liquefeito (GNL) do Novo México, estado localizado no sudoeste dos Estados Unidos, para abastecer um futuro terminal de emergência no condado de Clare. A proposta reacende o debate sobre a segurança energética do país e sobre o uso de gás produzido por fraturamento hidráulico.
Irlanda negocia fornecimento de gás com o Novo México
A governadora do Novo México, Michelle Lujan Grisham, liderou uma delegação que se reuniu na semana passada com o ministro da Energia da Irlanda, Darragh O’Brien, o ministro de Estado Neale Richmond e David Kelly, presidente-executivo da Gas Networks Ireland, empresa estatal responsável pela operação e manutenção da rede de gás natural da Irlanda.
Durante o encontro, os representantes discutiram a possibilidade de estabelecer uma parceria de longo prazo para o fornecimento de gás natural liquefeito.
A Associação Independente de Petróleo do Novo México informou que as conversas trataram da criação de uma relação duradoura de abastecimento. Segundo a entidade, representantes irlandeses demonstraram disposição para avaliar seriamente a possibilidade de importar GNL do estado americano.
As negociações ocorrem em um momento de preocupação com o futuro do abastecimento energético da Irlanda. Atualmente, o país depende do Reino Unido para cerca de 80% de suas necessidades de gás natural. Essa dependência aumenta os riscos caso ocorra uma interrupção no fornecimento.
Terminal de Shannon deve funcionar como reserva de emergência
O projeto de GNL de Shannon, previsto para Cahiracon, uma localidade no condado de Clare, às margens do rio Shannon, funcionará como uma reserva de gás para situações de emergência.
A estrutura poderá fornecer gás à Irlanda caso uma interrupção afete o abastecimento vindo do Reino Unido.
O governo irlandês prevê que o terminal entre em operação em 2030. A iniciativa busca reduzir os riscos provocados pela falta de uma reserva nacional de gás para situações de emergência.
A Irlanda está entre os poucos países da União Europeia que ainda não contam com esse tipo de reserva. Em 2023, uma avaliação nacional sobre os riscos à segurança energética já havia alertado para a vulnerabilidade do país devido à sua dependência do gás natural importado.
Gás de xisto volta ao centro do debate energético
O Novo México possui grandes reservas de gás de xisto, principalmente nas bacias de San Juan e do Permiano. A Bacia do Permiano se estende também pelo estado do Texas.
Empresas da região utilizam o fraturamento hidráulico, conhecido como fracking, para retirar parte desse gás do subsolo.
O processo utiliza água e outros fluidos em alta pressão para criar pequenas fissuras nas rochas subterrâneas. Essas fissuras permitem a liberação do gás natural, que depois chega à superfície para ser coletado e processado.
O método recebe críticas de grupos ambientais por causa dos possíveis impactos sobre a água, o solo e o clima. Na Irlanda, o governo proibiu o fraturamento hidráulico em 2017, em meio a preocupações ambientais.
Quatro anos depois, em 2021, o governo também proibiu a importação de gás produzido por meio dessa técnica enquanto avaliava os riscos relacionados à segurança energética.
Mais tarde, as autoridades retiraram essa restrição, abrindo novamente a possibilidade de importar gás produzido por fraturamento hidráulico.
Governo aprova estrutura flutuante para armazenar GNL
No ano passado, o governo irlandês aprovou a utilização de uma Unidade Flutuante de Armazenamento e Regaseificação(processo de transformação física do gás natural do estado líquido para o estado gasoso) conhecida pela sigla FSRU.
A estrutura funciona como um grande navio capaz de receber e armazenar GNL. Quando necessário, o equipamento transforma o gás novamente em seu estado gasoso para que ele possa entrar na rede nacional de distribuição.
Segundo a Gas Networks Ireland, a unidade de emergência terá capacidade para armazenar gás suficiente para atender às necessidades do país durante sete dias.
A empresa estima ainda que esse volume poderia abastecer cerca de 200 mil residências durante seis meses, de acordo com os parâmetros apresentados para o projeto.
O Departamento de Clima, Energia e Ambiente confirmou que a antiga política que impedia a importação de gás produzido por fraturamento hidráulico deixou de vigorar.
Mesmo com essa mudança, o governo não definiu o Novo México como fornecedor exclusivo.
As autoridades informaram que comprarão o GNL por meio de um processo público de contratação aberto a fornecedores de diferentes partes do mundo. Dessa forma, empresas internacionais poderão apresentar propostas para fornecer o combustível necessário para abastecer a FSRU.
A Gas Networks Ireland também confirmou que definirá o fornecedor após a conclusão desse processo de contratação.
Segurança energética continua sendo um desafio
A possibilidade de importar gás dos Estados Unidos mostra o desafio enfrentado pela Irlanda para conciliar a transição energética com a necessidade de manter um fornecimento seguro e estável.
Embora o país avance em seus compromissos relacionados à redução das emissões e à transição para fontes de energia mais limpas, o gás natural ainda desempenha um papel importante no abastecimento energético nacional.
Uma eventual parceria com o Novo México ainda depende de decisões do governo e do processo de contratação do GNL.
Por enquanto, as negociações mostram que a Irlanda busca novas alternativas para garantir o fornecimento de gás e fortalecer sua segurança energética nos próximos anos.
