Preocupações e recomendações do Comitê de Contas Públicas (PAC) contidas no ‘Relatório sobre a situação dos sem-teto na Irlanda do Norte’
Os gastos crescentes com alojamento temporário estão no centro do agravamento da crise de moradores de rua na Irlanda do Norte. O alerta foi feito pelo Comitê de Contas Públicas da Irlanda do Norte, que publicou um relatório detalhando falhas estruturais, deficiência de dados e a ausência de planejamento preventivo eficaz.
O documento, intitulado “Relatório sobre Pessoas Sem-Teto na Irlanda do Norte”, destaca que a dependência crescente de hotéis e pensões, somada à falta de uma estratégia integrada de longo prazo, contribui para aprofundar o problema habitacional na região.
Gastos com alojamento temporário disparam nos últimos anos
Segundo o relatório, a Autoridade de Habitação da Irlanda do Norte investiu 75 milhões de libras para enfrentar a falta de moradia apenas em 2024-25. Além disso, os custos com alojamentos temporários dispararam nos últimos anos.
Em 2018-19, foram gastos 7,6 milhões de libras com essa modalidade. Já em 2024-25, o valor ultrapassou 40 milhões, sendo 17 milhões direcionados a hotéis e pousadas consideradas não convencionais. Esse aumento revela um modelo de atuação mais reativo do que preventivo.
O presidente do Comitê, Daniel McCrossan, explicou que a permanência prolongada de famílias em alojamentos temporários afeta diretamente a saúde, a educação e a estabilidade emocional dos moradores. Consequentemente, essa abordagem de curto prazo não resolve a raiz do problema.
Número de famílias sem-teto cresce de forma alarmante
Nos últimos cinco anos, o número de famílias sem-teto na Irlanda do Norte aumentou em mais de 10 mil. Atualmente, cerca de 32 mil famílias aguardam moradia social na lista da Housing Executive. Quando considerados todos os indivíduos impactados, o total chega a quase 61 mil pessoas.
O relatório também aponta que os dados disponíveis ainda são insuficientes para medir a verdadeira dimensão da crise. Por isso, o Comitê recomenda que, nos próximos seis meses, as estatísticas incluam o número total de pessoas afetadas, e não apenas famílias cadastradas. Assim, será possível formular políticas públicas mais eficazes e direcionadas.
Falta de prevenção e moradia social agravam a crise
O relatório critica a fragilidade das ações preventivas. Embora a prevenção seja um pilar da estratégia oficial para pessoas em situação de rua, os investimentos têm sido insuficientes e voltados a soluções imediatas.
Além disso, o Comitê expressou preocupação com a ausência de metas claras. Apesar da ambição anunciada de construir 33 mil novas casas sociais, não há cronogramas detalhados nem objetivos mensuráveis.
Segundo os parlamentares, ampliar a oferta de moradias sociais e acessíveis é a medida mais eficaz para enfrentar a crise. Caso contrário, o sistema continuará priorizando soluções emergenciais, que aliviam temporariamente a situação, mas não atacam suas causas estruturais.
Propostas para enfrentar a crise de forma estruturada
Entre as recomendações está o desenvolvimento de uma visão estratégica única, coordenada entre o Departamento para as Comunidades e a Autoridade de Habitação. Além disso, o Comitê sugere estudar a criação de uma obrigação legal de prevenção à situação de rua, garantindo mais recursos e fortalecendo a cooperação entre setores.
Organizações comunitárias e voluntárias ouvidas durante a investigação reforçaram que as raízes da crise são profundas e vão além de fatores recentes, como a pandemia de Covid-19 ou o aumento do custo de vida. Portanto, é necessário um compromisso político consistente e de longo prazo.
O relatório conclui que a crise habitacional na Irlanda do Norte vai muito além da falta de um teto. Trata-se de um problema social complexo, que impacta gerações e exige planejamento sólido, dados transparentes e investimentos sustentáveis em moradia social e políticas públicas preventivas.
